30.8.17

Tudo é retrocesso. Em mim mesma, implantada numa cirurgia anciã, uma alma anciã. O mundo é um fluxo contínuo de retrocesso e eu me faço de espelho. Atrás do espelho, um caminho de rato que, no fundo, se esconde um monte do que se é. Não importa muito, não é o que o corpo precisa e nem disso depende o seu comportamento.
Queria sumir sem ninguém saber, sem perceber, como já sumiu pra si mesma.
Você não olha pra trás. Fecha a porta com delicadeza mas uma firmeza já conhecida de quem encerra o assunto no fundo da alma.
Alma que antes podia ver nos seus olhos de poços. Hoje não vejo mais nada do que você sente.
Talvez justamente porque você não sente mais nada quando olha no fundo do meu poço. Eu espero diariamente uma desculpa esfarrapada, um ato autônomo. Uma frase que seja genuína e surja quando ninguém espere, do fundo da sua garganta, direcionado para mim. Atinja o meio da minha testa, seja fogos de artifício, seja uma bazucada: atinja.
Enquanto isso, me esgueiro pela cidade vazia que existe bem dentro de mim depois do caminho de rato. Uma réplica perfeita. Felicidade parece que depende do seu parecer porque foi na ausência do seu parecer que me amarraram essa fita no pé e eu finquei. Programa de ontem que virou de hoje, que virou de amanhã, que virou agora. A caneta é fixa no espaço e quem se mexe abaixo é o caderno, no contorno da palavra. Perspectiva que não era esperada. Quem brilha: apaga; quem escreve, não o faz.
Dou risada do que já disse: Eu mesma que já chorei todo esse rio não vou escorregar mais rápido em direção ao mar?
Mal sabia da imensidão do mar. Da solidão.
Olha o tanto de peixe inalcançável. Reclamava com a boca cheia. Fosse lama, às vezes, ainda se fazia cheia.
Perdoa os atos falhos. Falho foi tanto de todas as partes. Não olha mesmo. Fecha a porta. Sua firmeza é certa, errado é meu olho cerrado por água salgada e peixe desconhecido: e eu, que nem sou daqui, querendo animal de água doce.
Água salgada arde demais na ferida que eu abri pra você sair. Pra tirar você.
Então, once your dreams come knocking at your door it's time to realize you aren't dreaming anymore. And once your life set to settle down take a look around you, no more dreaming to be found. So why then are you crying? It was you who denied them and no amount of tears could roll back all the years bring back all your dreams from yesterday.

24.8.17

Quando se trata de passar, você parece um comprimido de ibuprofeno deglutido sem água.
700mg.
Sem efeito analgésico.
queria sentir menos.

8.5.17

Eu que pensava que não ia amar mais ninguém nessa vida como já amei
aprendi que é isso mesmo
Eu que pensava que não ia sorrir como já sorri por aí
aprendi que não vou mesmo
Porque esse mundo é assolado de jeito novo de rir e ver e amar
(e eu não descobri sozinha)
(e se tudo deu certo, você descobriu também)
E aqui, de longe, olhando você na minha cama e esperando que o tempo não passe
e a que a gente não perceba ele passar
eu só penso como eu posso te amar assim
como nunca amei
como nem vou amar

4.4.17

Desistir é uma covardia corajosa.
Em determinado momento, apenas se despe de tudo que te rodeia e risca a pele. Afunda.
Boiar no fundo do mar sem encostar na areia.
Ver os pássaros voando depois da água. Ver os peixes caçando bem frente aos seus olhos.
Sentir as estrelas se aninhando em seus cabelos.
E não sentir.
Saber dos animais porque leu que ali habitavam, mas não por vê-los.
Não saber diferenciar o que é real e o que é imaginário.
Ouvir todos os sons na surdez da água no ouvido.
Tudo é distância e névoa. Turbidez.
É palavra de ordem: exigência. Levanta desse teu marasmo e sobe à terra que é preciso andar.
Teu sangue vai talhar.
Tua vida já parou.
Teus olhos já estão cheios de água.
já acabou, menino.
me deixa em paz no meu mar.
sem velejar, eu me acovardo
mas também me encorajo
e finalmente encontrando um sentido
acabo com o vão entre as costas e a imensidão
da areia do fundo da alma.

19.2.17

tudo o que há de brilho nesse mundo
luzes, estrelas, olhos,
energia dentro de mim
pro que cultuo
Tudo que que ecoa nesse universo
outras vozes, que seja
de falas que somam, de boas notícias
te rimam em verso na tua própria voz
eu ouço e peço que seja mais alto
que eu ecoe no espaço
que inunde esse porto
que me tome o corpo feito maré
que me leve até onde der
que minha alma toque a sua do avesso
no meu quarto, travesseiro, essas seis paredes
essas que rimam em segredo
que te falam entre parênteses
que te amam
e te apreciam
como quadro vivo
de quem pinta e já não vive tanto assim
mas meio morto
conseguiu atingir
e feito flecha envenena
até que parte e me deixa
aqui no meio do caminho
escrevendo poema
(só pra você rir quando acordar)

4.2.17

Te universo
Mas não rimo em um verso só
Rimo em Dias
Te vejo melhor com o passar dos sóis
Te rimo
Pra ser em poema ilusão tua
E me acolho
Na tua mão toda lua que passa
Não me guarda
Que eu vou como o rio
Como o mar
Eu também viro navio
E te navego
Pra te beijar em toda onda
Traga ela o que amar
Corais, peixe e poesia
E então eu me torno
Na tua pele, maresia.

30.1.17

considerações finais

Vira e volta e mexe e traz e me vem você na cabeça com questionamento em caixa alta: será que valeu a pena que te escrevo agora? Será que esse mar de lágrima todo que me escorreu, escorreu só por escorrer ou te chegou como rio? Será que o grito ecoou e ecoou só no espaço sideral inteiro ou você me ouviu nesse planeta pequeno que você vive? Será que você tentou me responder só por um segundinho em um bilhetinho pequeno em uma garrafinha pequena de pitchula e jogou no espaço pra voltar e agora ela só roda e roda e roda e roda e roda e eu espero espero espero espero?
Aí eu viro e volto e mexo e trago as respostas que já tenho anotadas todas em meu caderninho pra todas essas pequenas perguntas que parecem enormes quando estão em caixa alta: não, minha linda. Vai e vira e mexe embora que a vida não te deu poder de ser respondida nessa relação. Mas não te entristece. Pergunta sem ar assim é o que não falta no mundo.