Gosto de você um pouquinho. Mas só um pouquinho - o bastante pra me fazer pensar em você antes de dormir. O bastante para imaginar um passeio longo de mãos dadas, um piquenique naquele parque florestal próximo da minha casa. Poderíamos ser próximos como o parque e a minha casa, não poderíamos? Se quiséssemos. Mas parece que não é bem assim. Ah, se as coisas fossem mais fáceis! Se o meu medo de me arriscar e me perder nesses teus braços e carnes não fosse não grande. Se não fosse eu.. Tão boba. Tão infantil. Tão sonhadora. Mas ainda sim, tão sua... (mas só um pouquinho.)
Justificar me cansa. E eu não quero mais ser castigada por essas correntes de ferro enferrujado que se enroscaram nos meus pés, e me deixam presa aqui. Vago agora pelo nosso amor como um fantasma velho de alguém que já foi feliz: pálida semelhança. Dolorida semelhança. Não gosto de ficar assim, nessa situação de sobrevivência; não dá espaço pra respirar, sorrir. Já desejei, um tempo antes, a melhoria, mas minha esperança acabou depois de teimar tanto. Vou parar de me repetir, vou me libertar das algemas dos porquês, suspirar aliviada e um tanto triste também. Não existem "condições favoráveis" para o que é verdadeiro. Mas não existe sinônimo de verdadeiro com significado "eterno". Não no meu vocabulário.
Vivo para o amanhã: o hoje nunca funciona muito bem. O amanhã sempre guarda uma esperança de melhora, um brilho claro, uma luz num túnel longo que não chegou o fim. Sei que no presente estão as oportunidades, as alegrias e todos esses momentos que deixam a vida um pouco melhor. Mas não aqui. Não nesse presente, que parece mais pista de fórmula 1 pro piloto do carro: passa voando, quase não deixa que os pés toquem o chão. Me alimento, então, de ilusão. Ilusão de que amanhã há de ser um novo dia.

"- Por favor, por favor... que seja um dia melhor."
Procurava maneiras alternativas de falar "tanto faz". Tanto fazia mesmo: a dormência conseguiu ultrapassar seus limites mentais e chegar ao corpo. Não sentia mais dor, cansaço, ânimo ou seu antônimo. Tudo o que se passava não surpreendia mais e as surpresas perderam aquele toque de confeite colorido. Surpresa sempre tem confeite colorido, mesmo quando tristes. Mas, pela primeira vez... Respirar, piscar, viver, bombear sangue pro coração: tanto-fazia. Se o mundo rodasse, se a lua estivesse cheia ou minguante.. "Se as estrelas não brilhassem, pela primeira vez, está tudo bem para mim." No mais falso sentido de bem.
"merda".
Apertei os olhos bem miudinhos, como a gente aperta quando vê o sol. Segurei um grande fluxo de lágrimas atrás das pálpebras, mas algumas ainda conseguiram escorregar pra fora. Baixei o rosto e respirei fundo. Tudo acontecendo de novo, num cenário alterado. O vazio dentro e fora nunca fora tão presente. Não que eu me lembre. Mas, ultimamente, não me lembrava de muita coisa, nem fazia questão de lembrar. Tudo passava por mim, ou eu passava rápido demais por tantos lugares e pessoas? Só sei que era rápido. Minha vida tinha sido um borrão em alta velocidade nesses ultimos tempos. O problema é que algumas coisas passavam afiadas, cortando com precisão de Tramontina. E cortava fundo, ardia e as lágrimas conseguiam escapar pelos lados. Merda.

Como uma tecnologia muito avançada, eu silenciei. Esqueci que para ter novas palavras preciso gastar todas as antigas, ou paro. Preciso ler ...