você me dá lar sem perceber. nesse dia cinza eu corria pelas calçadas como a chuva e você veio sem nem saber. é o jeito do sorriso e do olho e da voz que é família e amor. sabe-se carinho e alívio das dores e todo o mais subentendido (e eu não temo).
mas também não alcanço. você sempre está ali atrás, e eu me virando; ou na outra esquina com seu silêncio cortante, mas os olhos são sempre meus e sempre nos meus. nas não sabemos andar de mãos dadas, mesmo quando andávamos.
você é lar, mas igual ao castelo animado: não tenho certeza de quando aparece, mas quando aparece sei que tudo está certo. quando se trata de passar, você é como um ibuprofeno de 700mg deglutido sem água. o efeito analgésico acontece, ao menos, agora.
e agora mais do que nunca: eu queria sentir menos.
às vezes eu escuto você chorar baixo. sempre é madrugada e nós estamos sozinhos, ninguém mais pode ouvir. eu passo a mão pelo seu cabelo branco e digo que tá tudo certo. você para de chorar mas ainda respira pesado pra me mostrar que seu pânico ainda não foi aplacado.
eu sinto esse desespero baixinho no meu coração. começa pelos dedos que encostam em você e vem chegando até o centro, no fundo da garganta. esse é o meu eixo, depois do palato mole. tudo fica acumulado ali.
meus ouvidos doem muito muito muito e agora mesmo que você chore eu não conseguiria ouvir. mesmo que você peça minha ajuda, eu não poderia. existem amarras na cama e seu corpo some e sua tristeza vira minha e eu sufoco.
e eu choro bem baixo pra você não ouvir. você não ouviria, mesmo que estivéssemos sozinhos no meu quarto, porque ouvir é uma materialidade. o dia pode amanhecer agora e seria noite da mesma forma porque essa é a consequência do abandono; os dias são todos iguais às noites e as noites são todas iguais. nunca me senti tão só antes. posso passar a mão em outro corpo e dormir junto de outro alguém; chorar ou ouvir alguém chorando baixo; sentir o desespero - mas
alguém pode não entender. você entenderia. se acomodaria entre minhas pernas e ficaria quieto, me olhando. aqueles grandes olhos redondos e azuis, no final. é de você que eu preciso, mesmo que você me impeça de te amar.

eu queria chorar pra você que desde que você foi embora eu venho ganhando algumas barreiras e perdendo muitas. eu consigo andar só e dormir melhor, mas eu preferia andar junto e dormir mal. preferia perder e reprovar por falta a me formar, se pudesse escolher. preferia cuidar de você. preferia sentir seu cheiro e seu cuidado. eu abriria mão dessa vida, tenho alguma certeza nisso. a perda é surreal e soa muito com insanidade.
eu tenho tanto medo de esquecer do seu cheiro.
e que você se divirta muito, muito, escancarado
As previsões não são muito boas.
Eventualmente vou me magoar e regredir aos poucos para me tornar o que já fui.
É lindo entender como me desconstruo em cartas pra você, mas a previsão... 
A fala não acompanha o sentimento.
Uma madrugada eu te amo e espero que você durma pra eu poder falar isso. Eu te amo e independe de uma resposta, porque amaria mesmo se você não estivesse aqui do meu lado. Um dia eu te amo quando ando de ônibus ou penso em não tê-lo; eu te amo ao meu lado à pé, em calmaria ou em correria de mãos dadas.
 No dia seguinte, domingo de sol alto, dói. Meu amor me cansa.
Cansa porque se torna, aos poucos, uma vergonha ou medo te amar. Porque eu espero que, igual ontem, eu me sinta pronta pra te amar e você amar de volta, incondicional como esse calor que me assola no jardim.
Mas as previsões...
Eu jogo o baralho do tarot e penso em você. Espero que saia um aviso do universo, bem claro, avisando que é pra eu me segurar só um poquinho nesse não-saber pra saber quando vai ser sua hora certa. O tarot me avisa que agora é o tempo de encerrar ciclos, como na semana passada, mas que tudo vai ser renovado. Basta segurar na mão firme e esperar esse misto de energia passar.
Me lembro de quando você segura a minha mão e parece que não vai soltar (e como eu estranhei no inicio essa força que você não percebia). É difícil segurar mão no calor. É difícil manter contato.
Os espaços que você não completa vão ecoando um som nosso que eu não queria ouvir.
é que eu te amo mesmo que eu não possa, não deva.
inevitável não ouvir.
inevitável não regredir.
a gente aprende a desamar pra se proteger. pra não se agredir.
aprender a desamar não é espontâneo, é mudança ativa. é se cortar sabendo da dor que vai sentir, é prevenção de entender que a dor pode ser pior por amar sozinho.
desamar sozinho dói porque é silencioso. porque ninguém admite que tá em processo de desamar pra quem ama (é melhor assim). porque é se amarrar e não poder tocar o rosto ou pedir uma notícia de quando chegar em casa. desamar dói porque te transforma em objeto quando você queria ser atuante.
a gente aprende a desamar pra parcelar a tristeza de desamarrar a fita.
se desfazer antes que alguém o faça.

Como uma tecnologia muito avançada, eu silenciei. Esqueci que para ter novas palavras preciso gastar todas as antigas, ou paro. Preciso ler ...