Talvez (pra começar bem, tão inconstante) eu tenha medo de mim mesma.
Até onde eu posso ir? Até que fundo eu posso afundar?
O limite é a morte?
Não me agrada falar assim, escrever assim, tão claro. Morrer. Carrega tantos significados ruins, tanta memória ruim, tanto fim ruim. Mas nessa língua, esse é o limite?
Quem me vê, crê? Em tudo o que eu escrevo, revelo secretamente. Em tudo o que eu escorrego, crê?
Porque por fora, quem sabe rodeando, quem não afundou - tantos rodeiam - não crêem.
Ela?
Ela que sorri tanto? Que tem tudo que precisa.
Ela que não consegue admitir tudo em si mesma. Ela que pensa que não dá pra falar, que só mascara o tempo todo. Que sorri tanto. Que tem tudo o que precisa.
Ela que se culpa. Tem tudo aqui, na mão, que faz tudo aqui, que dá certo, que tá progredindo, que tá levando empurrando.
Mas não admite.
Como uma piscina rasa. A felicidade evapora como álcool.
Sedimenta tudo o que resta além.
Talvez (pra terminar pior ainda) eu seja uma piscina rasa que tem medo de si mesma.
Que não conhece funduras.
Que não se afogou o suficiente.
Que só teme. E finge.
E quando é, só espera o limite.

Não sei como é que vai acontecer.
Tem dia que o sol brilha forte e queima a nuca como se fosse um castigo. Tem dia que o sol se esconde nas cobertas e acabou-se.
Mas tem dia que o sol faz média. Brilha na hora do almoço mas logo se recolhe, como quem já se cansou. Como quem diz "eu não aguento mais brilhar pra vocês".
Quando eu era criança nada me abalava. Eu ia e pronto. Ia com gente que eu nem conhecia, ia rindo e o que ficasse pra trás, mãe, pai ou polly, ficou. Brilhava forte para os outros como se fosse um castigo, com um riso maldito de criança que se deixa ir, que não tem amarra, que não dá pra chantagear.
Quando eu era adolescente, eu me escondia debaixo das cobertas. Descobri em mim várias caixas de Pandora. Sentimentos que me transbordaram até o fundo do estômago e eu nem sabia pra onde ir (mas mesmo assim, continuei indo). Nunca vomitei. Mesmo cheia o bastante pra explodir, eu nunca vomitei.
Agora eu faço a média. Talvez a faça porque sei que falta pouco, tão pouco, que esse sentimento me trança os cabelos como uma mãe carinhosa, calmamente, zelando. O sol brilha pra mim tão alto e tão quente como quem me lembra do que tenho que fazer. Recolhe-se rapidamente lembrando de como é. Como se cada palavra fosse uma palavra de adeus.
Não sei como é que vai acontecer.
Talvez seja amanhã. Ou depois.
Talvez seja o medo me castigando de dentro pra fora.
Não quero magoar ninguém. Mas por um momento, pense só que talvez se libertar não seja retroceder. 
Toda vez que eu desço ao fundo do poço, algumas pragas grudam em mim como sanguessugas. Eu me vejo doente, como antes, a mesma doença de sempre, com os mesmos sintomas. Como se o meu corpo não produzisse anticorpos psicológicos. Vejo que aos 20 cometo os erros dos 15 e me guardo, feito tatu bola, em mim mesma. Esperando que passe. Esperando que eu mude. Esperando para que eu possa subir e me abrir novamente.
Esses tempos são tão cansativos que por um fio, um milésimo de segundo, essas pragas não me levam à óbito. Meu corpo perece como uma fruta podre e dessa fruta retorna - mas não como um renascer. Eu não renovo. O corpo continua podre e tenta rejuvenescer, como em um milagre de volta ao tempo, mas não consegue. Sobrevive. Sempre sobrevida.
As idas ao centro da terra mantém um padrão de tempo: seis em seis meses, talvez. Uma aventura para me abalar as estruturas. Quando de volta à vida vejo o real perigo, porém no cesto torno-me cega e surda. A analogia usada poderia ser até outra: afundada no mar. Calmo. Sereno. Escuro, vazio, quieto, amplo. Há tantas características que podem ser atribuídas às minhas tristezas que dariam um dicionário. Ainda assim, existe uma que se sobressai, ressalta por seu caráter sinestésico: minha tristeza é azul. Tão azul que posso senti-la na ponta da minha língua,  no fundo dos meus olhos ou se espalhando na superfície da minha cabeça, como um manto. Uma armadilha. Uma jaula. É sempre um desafio desvencilhar-me dela, sempre aumentando o nível de dificuldade. E daqui mesmo, do início (ou mais) posso ver que o futuro segue nessa linha reta até o ponto onde o mundo se torna oco e acaba. Não é tão longe.
Standing at the punch table swallowing punch
can't pay attention to the sound of anyone
a little more stupid, a little more scared
every minute more unprepared

I made a mistake in my life today
everything I love gets lost in drawers
I want to start over, I want to be winning
way out of sync from the beginning.


Não sei quando perdi o eixo.
A grande história é que ainda existem pequenas coisas que me prendem a esse corpo. Pequenas vidas, curtas. Espaços de tempo que me fazem querer mais - mas diminuem ao longo desse processo.
Quando você sabe de algo, você pode arranjar meios de explicar isso. Eu li em um livro. Eu ouvi de um grande cientista. Eu pesquisei em vários papers. Mas isso não se desenvolve dessa maneira: eu sei. Não porque descobri. Nasci sabendo. Cresci sabendo. Sei porque sei.
Sinto que esse corpo, esse peso, esse aprisionamento que me custa tão caro, é mais temporário que o que o temporário pode durar para maioria das pessoas. Não me diga não. Eu não gosto de explicar. Eu não gosto de me ouvir dizendo palavras de conforto pra quem nunca vai ter conforto com um pensamento tão ébrio pra esse mundo - eu só sei porque sei.
Mas eu ainda digo porque acho que o conforto deve ser um sentimento maravilhoso quando alcança a alma. Fiquem calmos. A vida é tão boa. Amanhã vai ser melhor. Você pode aprender. Fique calma. Não sei: esse sentimento me rodeia a alma como um cachorro desconfiado. O terreno não é bom o suficiente pra se arriscar. Nasce coisa, nasce palavra, nasce sentimento. Mas tudo de mim é expulso, nada é importado.
É tanta bagagem que se acumula, tanta coisa inútil que não dá nem pra começar a se esgueirar por cima do muro. Então tudo fica desconfiado na superfície, e o que vem de dentro escapa desesperado, numa fuga descontrolada, como se fosse pedido de socorro. Pode ser.
Aí me vem quem se arrisca e aí me acorrenta: não faça isso. Não me adicionem mais amarras. A felicidade é minha liberdade, minha liberdade é felicidade. Não espero que entendam todos. Espero só que não se deixem abalar. Nada de perdas trágicas, nada de velas, nada de muitas lágrimas. Não quero ser livre pra chorar pelo choro do outro.
Questionar todos os ensinamentos é tão difícil, mas por um momento, pense só que talvez se libertar não seja retroceder. Talvez a natureza não tenha dado conta, o destino deixou de lado e aí me tornei essa coisa que deveria ser biodegradável e ficou sendo só sendo encostado na parede esperando pra ser degradado mas não foi. O mundo, os deuses que regem todo tipo de fé, quem sabe eles não precisem de uma mãozinha aqui ou aculá?
Talvez não hoje. Nem amanhã. Nem próxima semana. Mas eu sei, por conclusão (muito pouco conclusiva, mas entre tanta interrogação, qualquer exclamação me ganha atenção e tem seu valor) que é, que serei e pronto. Não li em livros. Não pesquisei artigos. Não consultei nenhum cientista. Na alma sem eixo, no fundo do estômago: eu sei porque sei.
Nasci sabendo.
E já não me assusto mais.

Como uma tecnologia muito avançada, eu silenciei. Esqueci que para ter novas palavras preciso gastar todas as antigas, ou paro. Preciso ler ...