Hoje a carne é fresca, recém abatida
pulsa na mão, muito mais viva que outrora
volta um mês e vê-se a diferença
na cor do sangue que escorre entre as bochechas
no coração que bate rápido e arqueja mansinho
no ouvido
como quem nada tem a dizer, e ainda assim
quer gritar tudo que te ama
com uma gana de te beijar inteiro
espera que o dia passe, o janeiro passe
pra todo dia apaixonar pelos seus apelos
que me faz apaixonar pelo mundo
e todos seus pequenos espaços
entre você e eu
o céu
o rio
e o que sinto.
Queria
que todos seus beijos fossem meus
e todas suas mãos fossem no meu corpo
e todas as lembranças me tivessem
Mas não são
Não estou
Não estive
talvez nem seja
(como já não fui e continuo não sendo em nenhum lugar)
Então me encontra em uma parada qualquer quando quiser ressignificar outra música ou outro momento porque cabe dentro de mim todas as milhares de coisas que você tem pra despejar e inundar uma banheira europeia.
E me afoga no que é teu que é pra embriagar tudo o que me resta e te deseja e me deixa à deriva de outro oceano pra eu me encontrar mesmo que seja me perdendo em tantas palavras contínuas e suas e minhas
como se fosse de maré
como sou toda eu
minha e sua sendo gigantesca
sua, como não se esperava.

mas sendo
não estando
Não era pra ser eu, mas foi eu muito tempo.
Dói no orgulho da gente. Você sabia que não era e também escondeu de mim. Inclusive eu mesma escondi de mim e talvez soubesse já fazia um tempão (desde que não conseguia fazer seus olhos queimarem do jeito que deveriam), mas eu queria ser. Queria que fosse eu toda, do avesso.
Mas não era.
Dói no orgulho da gente porque fica todo aquele esforço flutuando no espaço. Não foi vão, é claro, nada é vão, mas não era eu. Eu que tanto me despedacei e me colei, eu que tanto respirava enquanto afogava, que me agarrei nos seus cabelos e detalhes e simetria perfeita, eu que hoje (especialmente hoje) não sei nem o que é respirar direitinho: era eu me esforçando pra não ser.
Não faz assim. Avisa quando não for.
As pessoas amam te ouvir. Não finge que não existe.
Eu amei te ouvir, tanto.
Mas não era pra mim que era pra você falar. Tanto que nem falou.
Nem antes. Nem no meio. Nem muito depois.
Fechei meus olhos enquanto te beijava porque não queria contaminar sua tristeza com a minha.
Mas os seus olhos...
Peço perdão por todas as invasões cometidas até agora. Sempre foi falta de respeito e responsabilidade, mas sabemos que se eu possuísse o freio, cordas e amarras que você possui, eu nunca veria os olhos pegando fogo e a cova rasa (onde eu poderia ser enterrada viva) que aparece ao lado da sua boca quando ri. E isso é importante: eu quero. Peço perdão dessa vez pela ousadia, porque sinto muito que eu invada, mas invado mesmo assim. Talvez eu continue só pra ver onde esse caminho vai me levar. Admitamos que é um caminho solitário, unilateral, quase uma tortura. Você amarrado e eu rindo ao seu redor. Você ri de mim e morre um pouco.
Isso é o que me dói. Não posso ser seu motivo de felicidade. Você precisa das amarras, você precisa desse peso que amarrou nos seus pés pra manter-se são, na linha das responsabilidades que prometeu cumprir. Tão honrado. E eu sou tudo aquilo que você não espera e não alcança: a que voa ao redor, voa longe, voa perto, vai e volta e sorri e chora e se afoga e continua viva. Você é toda doida.
Tempo errado, bad timing, momento terrível. Mas o grande pulo do gato reside que eu posso ir e vir. Todo dia preparada pra te desamarrar e ver você voando comigo, leão e cavalo correndo lado a lado. Sendo meio gente e meio selvageria. Olhando com os olhos bem abertos no seus, de joelhos como uma bênção e um pecado ao mesmo tempo. Sorrindo ao me meter nas covas rasas. Me perdendo por tudo o que você é, de bom e de ruim. Não me importo em pensar assim. Mas me dói um pouquinho.
Alguns dias são mais difíceis que os outros.
Seu sorriso é uma faca. Toda vez que o vejo, é afogar em saudade.
Hoje particularmente senti falta da sua voz. Domingo é foda. Tem uns três anos que passo domingo agarrada em você, tentando ver as coisas de um jeito diferente e mais positivo, mas nesse mês tá assim. Som de vazio. Ecoa só tristeza em mim.
A pior tristeza é a de saber que poderia ser pior se eu não tivesse feito nada. Ficado por que era mais fácil, mais cômodo, uma tristeza mais mansa do que a que tô sentindo agora.
Mas sei também que se fosse pra continuar, a tristeza mansa ia se tornar em algum sentimento desses ruins que perdem o controle depois de um tempo. Vira falta de respeito, falta de vontade, um monte de falta até que não sobra nada.
Então: hoje foi um dia mais difícil que os outros, mas é melhor que seja assim não-te-ter hoje do que não-te-ter pra sempre. Apesar de parecer, não tô muito segura nas minhas decisões não. Mas se eu as tomei, então é melhor me manter firme e fiel a mim mesma. Por um tempo vai ser assim mesmo: sucessão de dias péssimos, uns domingos piores que os outros, mas depois passa. É se perder pra se encontrar. É o melhor que eu posso fazer.

Como uma tecnologia muito avançada, eu silenciei. Esqueci que para ter novas palavras preciso gastar todas as antigas, ou paro. Preciso ler ...