Todas essas vozes que me falam sobre os meus erros não são de outras pessoas, mas de mim mesma. Existem diversos habitantes parasitas de pensamento que corroem e dominam as frequências que batem no meu ouvido, no fundo, como sino. Falam alto e se sobrepõe, não se importam com a ordem ou meu cansaço, me chutam no rosto, perna, braços, costelas, furam meus olhos e quebram meus dedos, escalpelam-me, arrancam as unhas e me olham com tudo o que sentem nas mãos, enfiando todo o peso do que são goela rasgada abaixo.

Eu engulo.

Lua, pela primeira vez quis uma segunda pra te ouvir falar.

Não escrevera antes pois sucumbiria.
Sabia antes mesmo de acontecer o que a esperava e foi. Sempre quis vê-lo de perto e se perder. Se perdeu nos olhos que eram maiores do que imaginava e comiam ela inteira.
Sem mastigar. 
E colocavam ela no lugar, no exato mesmo lugar que abocanhou. E quando se desviava, não parecia nem lembrar que havia comido.
Até se voltar novamente.
Havia também a mão, que seguia suas linhas sem mudar sua forma. Apenas a acompanhava pra saber o seu destino, no rosto, no corpo, na parte de dentro da mão. Mesmo que antes vibrasse e não fosse capaz de sustentar uma taça, ao traçar as linhas era firme e cirúrgica.
Sem a frieza de um bisturi. Sem a firmeza de uma palavra alta.
Era carinhoso. Cuidadoso. 
E era solitário. 
A seguia de fora, como quem ronda. Um bicho que veio do meio do arbusto, como a lua que salta da árvore vista pela janela. Olhava com os olhos que abocanhavam, cheirava com o rosto de espetava e seguia os rastros com as mãos de cuidado. 
Toda mudança era externa, parecia. 
Talvez ela não o atingisse mesmo que, na rota contrária, ele fosse como um impacto.
Às vezes contava a ela que seu rosto não acompanhava o sentimento, mas poderia acontecer que acompanhasse. 
Ela não saberia dizer. 
Queria ouvir da boca as palavras, todas as palavras. 
não seria hoje. 

 tudo tem essa cor morna quando o dia passa debaixo d'água.

gosto de chá agora. gosto porque sinto o mundo dentro de mim e o afogamento passa desapercebido quando a água quente enche o peito. o gelo me tortura.

olho pras páginas anteriores e penso como é bonito o sentir da juventude e como todo o barulho torna-se (rápida e inesperadamente) o silencio mais denso e jamais imaginado. havia uma grande latência no sentir, o sentimento que podia se alojar todo no fundo da garganta e formigar pela pele. tudo era tato. tudo.

e como tudo isso se torna vago na adultização. e como os neologismos se tornam tolos. e tudo que ultrapassa da fala pro corpo é cansativo demais pra ser realizado. e todo o mundo cabe numa xícara antes de sair, entre os intervalos de uma admissão assalariada sufocante, e no grande final exaustivo do dia. e os finais são sempre muito mais ansiados que os inícios.

termina-se tudo com um grande suspiro. antes, iniciava-se. o suspiro era uma fantasia. o suspiro é, agora, um intervalo respiratório um pouco mais extenso que o aceitável e cabível pela diretoria. uma pausa forçada. um socorro assobiado.

tudo tem essa cor morna quando o dia passa debaixo d'água e todos os dias são afogamentos silenciosos do corpo e de tudo o que tem dentro, até o ultimo espaço onde a alma habita. por dinheiro. 

e nós nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, seremos plenamente deixados em paz.


 Eu tenho uma nota no meu bloco que a primeira nota é cuidar de você.

Hoje eu vi uma lembrança na rede social, de mim, reclamando pra outro alguém, como você me irritava às 6 da manhã. Hoje encontrei as fotos e outros detalhes que enchiam todo minuto do meu passado que se entrelaçavam na sua existência.
A morte é um abismo.
A vida seguia como uma estrada larga e depois afinando, afinando, afinando... Quando eu pensava que acabaria, acabou. E esse fim, mesmo quando já se sabia ali na frente, quando se via a beira do abismo, ainda arrasa.
É silencioso. O que continuou, depois de você, não foi uma vida. Parece uma coletânea de dias soltos, seguidos e sem conexão. Daqui quatro anos, vou entrar na rede social e ser lembrada de como eu parei e caí e silenciei e tentei grudar todos os dias pensando que é assim que se segue.
Daqui quatro anos vou ver a nota que me lembrava de cuidar de você, e as fotos, e as flores que plantei em cima do que sobrou. Vou ter você no braço esquerdo, na parte de dentro - impensadamente, também perto do coração.
Vou ter você no coração, também.
Abriria mão de tudo pra seguir sem abismo.
você me dá lar sem perceber. nesse dia cinza eu corria pelas calçadas como a chuva e você veio sem nem saber. é o jeito do sorriso e do olho e da voz que é família e amor. sabe-se carinho e alívio das dores e todo o mais subentendido (e eu não temo).
mas também não alcanço. você sempre está ali atrás, e eu me virando; ou na outra esquina com seu silêncio cortante, mas os olhos são sempre meus e sempre nos meus. nas não sabemos andar de mãos dadas, mesmo quando andávamos.
você é lar, mas igual ao castelo animado: não tenho certeza de quando aparece, mas quando aparece sei que tudo está certo. quando se trata de passar, você é como um ibuprofeno de 700mg deglutido sem água. o efeito analgésico acontece, ao menos, agora.
e agora mais do que nunca: eu queria sentir menos.

Como uma tecnologia muito avançada, eu silenciei. Esqueci que para ter novas palavras preciso gastar todas as antigas, ou paro. Preciso ler ...