o dia que eu descobri, em mim, maré alta

Houve um momento e nesse momento houve uma colisão, suave e silenciosa, feita de pontas, como uma estrela bem no meio do arco, no lugar da flecha, pronta para ser lançada. Eu me lembro bem da sensação da ponta do dedo passando pelo meu rosto e eu já sabia, e você também já sabia, mas era um acordo silencioso e os dois viveriam quietos por mais tempo em seguida para que não fosse real. E esse tempo doeu, uma faca de brilho perigoso, afiadíssima que se entranhava entre as costelas, rasgando o tecido, mas fluida como água e triste como também. Mas não importava, porque aconteceu a colisão e agora a flecha havia sido lançada e algumas coisas não retornam. Eu olhei pra você, deitada no chão, de uma distância segura. Olhei para o céu e ele era azul e laranja, como um presságio. Um presságio de mudança, porque a cada segundo refletia-se na telha em uma cor diferente a depender do passar das nuvens e do ângulo que eu lançava o olhar. Tentei te mostrar, apontava pra longe de mim. Desviava da flecha como se não soubesse do seu movimento, ingênua ou fingindo ingenuidade. Mas você olhou pra mim e parou, como quem segura o tempo com as mãos, com os dedos, com os cílios.
Todas as palavras ficaram suspensas. Todos os sons ficaram mudos.
O fluxo de todo o material ao nosso redor não era mais fluxo, era estático.
Todas as células calaram-se e quase morreram. 
Foi apenas um segundo. Mil milésimos de segundo. Tudo que dividia resolveu se multiplicar, mas no retorno, suspendeu.
E então foi determinado, não por mim, nem por você, isentando-nos de responsabilidade, e mesmo assim sendo toda nossa. Antes do que pudesse escolher e antes que fosse uma opção; antes de haver uma ação deliberada, antes da colisão e do arco e da estrela de pontas me alcançando na nuca, bem no centro do que liga meus pensamentos aos meus dedos. Uma sentença realizada por ninguém: isso é o que seria. 


Minha memória é péssima.
e mesmo assim, eu guardei o seu cheiro. 
Se as minhas palavras pudessem se transmutar no momento que saltassem da boca, elas o fariam. Não que eu queria tirar de mim a culpa de um expresso mal feito, ou preposição mal elaborada, mas o boicote acontece e rapidamente o questionamento vira adaga; o amor vira barro; o ouro se transmuta em qualquer composto orgânico sem valor. Talvez seja, também, o meu tom de voz que dá vazão pra que isso ocorra; talvez seja o movimento dos meus lábios que não abrem o suficiente; talvez sejam as cordas vocais demasiadamente aproximadas e elas se batem e batem como se criassem uma nova palavra que não foi imaginada, não era a querida, mas foi dita como se fosse a original, pois é a primeira vez que é proferida para ouvido do outro. Então assumo essa posição de silêncio e calada eu devo seguir, sem debater minhas dúvidas sobre as normas e anormalidades cotidianas como se tudo fosse muito o que se é e nunca tivesse sido diferente. Então assumo a posição da apatia e do cansaço que logo chega por não aguentar não falar mais nada, não poder cantar mais nada, nem pensar mais nada que esteja completamente errado. Não por ser errado mas por não ser congruente com o que havia sido pensado até que o pensamento não faça mais sentido e pare. pare.
a culpa é minha, só pode ser minha, e eu me boicoto porque eu penso e porque eu falo. 
entreosdias você se ausentou e agora age como se tivesse sempre muito presente
entreosdias eu sobrevivia respirando ar quente, vermelho, de uma terra árida 
entreosdias as pessoas não viam que você se cegava, intencionalmente, 
entreosdias eu escorreguei para o lado do plano central que era viver no futuro conjunto 
falho 
até o dia ser o marco 
de um fim

i bet
you win
the days
are gone

Todas essas vozes que me falam sobre os meus erros não são de outras pessoas, mas de mim mesma. Existem diversos habitantes parasitas de pensamento que corroem e dominam as frequências que batem no meu ouvido, no fundo, como sino. Falam alto e se sobrepõe, não se importam com a ordem ou meu cansaço, me chutam no rosto, perna, braços, costelas, furam meus olhos e quebram meus dedos, escalpelam-me, arrancam as unhas e me olham com tudo o que sentem nas mãos, enfiando todo o peso do que são goela rasgada abaixo.

Eu engulo.

Lua, pela primeira vez quis uma segunda pra te ouvir falar.

Não escrevera antes pois sucumbiria.
Sabia antes mesmo de acontecer o que a esperava e foi. Sempre quis vê-lo de perto e se perder. Se perdeu nos olhos que eram maiores do que imaginava e comiam ela inteira.
Sem mastigar. 
E colocavam ela no lugar, no exato mesmo lugar que abocanhou. E quando se desviava, não parecia nem lembrar que havia comido.
Até se voltar novamente.
Havia também a mão, que seguia suas linhas sem mudar sua forma. Apenas a acompanhava pra saber o seu destino, no rosto, no corpo, na parte de dentro da mão. Mesmo que antes vibrasse e não fosse capaz de sustentar uma taça, ao traçar as linhas era firme e cirúrgica.
Sem a frieza de um bisturi. Sem a firmeza de uma palavra alta.
Era carinhoso. Cuidadoso. 
E era solitário. 
A seguia de fora, como quem ronda. Um bicho que veio do meio do arbusto, como a lua que salta da árvore vista pela janela. Olhava com os olhos que abocanhavam, cheirava com o rosto de espetava e seguia os rastros com as mãos de cuidado. 
Toda mudança era externa, parecia. 
Talvez ela não o atingisse mesmo que, na rota contrária, ele fosse como um impacto.
Às vezes contava a ela que seu rosto não acompanhava o sentimento, mas poderia acontecer que acompanhasse. 
Ela não saberia dizer. 
Queria ouvir da boca as palavras, todas as palavras. 
não seria hoje. 

Como uma tecnologia muito avançada, eu silenciei. Esqueci que para ter novas palavras preciso gastar todas as antigas, ou paro. Preciso ler ...